10 abril 2013

BOATE KISS. Sobrevivente relata o caso em Curitiba

Jonathan Campos/ Gazeta do Povo / Jéssica e Bruno namoravam havia 5 anos. Ele não sobreviveu
Jéssica e Bruno namoravam havia 5 anos. Ele não sobreviveu

Por FERNANDA TRISOTTO/gazetadopovo
Ao ver fotos recentes das amigas no Facebook, Jéssica Duarte da Rosa, 20 anos, se surpreendeu. Elas estavam, recentemente, em uma das boates que o grupo nunca frequentava em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, porque consideravam um lugar “chinelo”. Como o local costumava lotar, porque liberava a entrada sem cobrança até um determinado horário, elas, até então, preferiam ir a outros bares e casas noturnas. Uma delas era a Kiss, palco de um incêndio em janeiro que vitimou 241 pessoas.
Jéssica estava na boate no dia da tragédia. Passou um mês no hospital, se recuperando da intoxicação pela fumaça e das queimaduras. Perdeu amigos e o namorado, com quem estava havia cinco anos. Ela sobreviveu, e viu que os lugares mais badalados, bonitos e sofisticados da cidade universitária acabaram fechados por não respeitarem todas as condições necessárias de segurança. Jéssica vai contar a sua experiência no Papo Universitário de hoje, que discute o tema “Balada Segura”.
Jéssica participa hoje do Papo Universitário, no Teatro Paiol. Ela perdeu o namorado na tragédia e teve 45% do corpo queimado
Tragédia
Jovem não iria ligar para o pai porque achava que a situação não era grave
Na noite da tragédia da boate Kiss, Jéssica Duarte da Rosa, 20 anos, e seu namorado, Bruno Portella Fricks, não iam sair. Ela já tinha até ligado para pedir a bênção aos pais, mas o casal mudou de ideia e resolveu ir a um barzinho. Sem conseguir entrar, foram para a Kiss. Entraram às 2 horas. Pouco mais de uma hora depois, o fogo tomou conta do local.
Os dois saíam do banheiro quando viram um tumulto e acreditaram ser uma briga. De mãos dadas com a namorada, Bruno foi abrindo espaço. Só então os dois perceberam o fogo e a fumaça, que atrapalhava a respiração. A bagunça fez os dois se separarem. Ela perdeu os sapatos e foi carregada por alguém. Apagou. Acordou do lado de fora, com um bombeiro batendo em seu rosto para ver se ainda estava viva.
Outro apagão. Acordou no hospital. “Só enxergava vultos. Arranquei tudo e comecei a perguntar pelo Bruno. Só me disseram que ele não estava lá”, conta. Nos corredores, médicos e enfermeiros correndo. Com o ce­lular de uma enfermeira, ligou para a sogra, em Santa Maria, para contar o ocorrido. “Não ia ligar para meu pai porque achei que não era muita coisa o que eu estava passando. Quan­do duas meninas passaram por mim e choraram, percebi que era ruim.”
Às 4h35, ligou para o pai, que há três anos mora com sua mãe e seu irmão em Colombo, transferido para uma filial da empre­sa na qual trabalha. A enfermeira tomou o telefone e o alertou que a situação não era boa. Claudio Forgiarini acal­­mou a filha e telefonou para um sobrinho em Porto Alegre. Ele pediu a um médico conhecido de Santa Maria que fosse ver Jéssica.
No corredor, em meio ao caos, Jéssica se levantou da maca e enxergou o médico, que havia visto apenas uma vez em uma festa de família na praia. “Ele tirou meus anéis, brincos, piercing e o vestido. Depois, não lembro de mais nada”, diz. Ele prestou toda assistência e percebeu a dificuldade da menina em respirar. Mandou entubá-la e salvou sua vida.

No encontro, serão discutidos aspectos de conforto e fiscalização nas casas noturnas, a relação dos baladeiros com os profissionais de segurança e o consumo de álcool nos estabelecimentos. “Muitos me condenaram, dizendo que eu tinha de ter cuidado com o local onde pisava. A boate estava aberta, todo mundo ia, era linda e o atendimento era bom. Nunca poderia imaginar que isso aconteceria”, diz ela, que quer contar sua história para que esse tipo de episódio não se repita.
A jovem, que estudava administração na Universidade Federal de Santa Maria, abandonou o curso e veio morar com os pais em Colombo, na região metropolitana de Curitiba.
Nesta edição do Papo, os universitários vão participar da conversa com o promoter e baladeiro Celso Ferreira; o empresário e diretor comercial do grupo Wood’s, Fabrício Maggi; a professora e radialista Luciana Worms; e o major Olavo Vianei Nunes, coordenador da Ação Integrada de Fiscalização Urbana (Aifu), responsável por vistoriar os bares e as casas noturnas de Curitiba.
Mudança
É inegável que a tragédia da boate Kiss mexeu com os brasileiros. Depois do incêndio, prefeituras de todo o país intensificaram a fiscalização a bares, restaurantes e casas noturnas, o que resultou no fechamento de vários estabelecimentos em cidades grandes e pequenas. No Paraná, dezenas de casas noturnas baixaram as portas e as ações integradas de fiscalização continuam ocorrendo.
Na Kiss, o fogo começou durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira, que usou artefatos pirotécnicos no palco, na madrugada de 27 de janeiro. A chama se alastrou pela espuma que fazia o isolamento acústico da casa e não era adequada para essa função. A superlotação da boate e a falta de saídas de emergência fizeram com que dezenas de jovens morressem intoxicados pela fumaça. Outras dezenas de pessoas foram internadas em hospitais para tratar da intoxicação e das queimaduras. Nem todos resistiram.
Na última semana, o Mi­­nistério Público do Rio Grande do Sul finalizou seu inquérito e apresentou a denúncia à Justiça, que aceitou o pedido. Oito pessoas foram acusadas criminalmente: dois sócios da casa noturna e dois integrantes da banda foram denunciados por homicídio doloso qualificado e 636 tentativas de homicídio. As outras denúncias criminais foram por fraude processual (2) e falso testemunho (2).
Uma nova vida
Jéssica e Bruno não voltaram a se encontrar. Os dois foram socorridos e levados para o hospital em Santa Maria e logo foram transferidos para outras unidades médicas em Porto Alegre. Bruno lutou, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no dia dois de fevereiro, quando o casal comemoraria cinco anos de namoro. O jovem era formado em administração e trabalhava na América Latina Logística (ALL).
Quando Bruno morreu, Jéssica ainda estava na UTI. O incêndio causou queimaduras em 45% do corpo da jovem, principalmente no lado direito. Ela passou por raspagens e enxertos de pele e ficou um mês no hospital. Só na UTI do Hospital Cristo Redentor foram dez dias. O último, 17 de fevereiro, era o aniversário de um ano do irmão, Guilherme. O pequeno pode visitá-la e ganhou uma festinha na UTI. Depois da injeção de ânimo, os pais e médicos contaram a Jéssica que ela havia perdido o namorado. “Eu não acreditava, achava que ele estava em Santa Maria. Chorei muito e logo fui dopada”, lembra.
No dia seguinte, no quarto, ela iniciou uma luta para sair logo do hospital e voltar para casa. Oito quilos mais magra e com pernas, braços e costas muito sensíveis por causa das queimaduras, Jéssica não tinha força para andar e ela só seria liberada quando caminhasse e não sentisse dor. Ela começou uma fisioterapia e sonhava em sair antes do fim do mês, como foi prometido por um médico, mas um novo enxerto adiaria sua recuperação: os exercícios de fisioterapia foram suspensos.
Determinada, ela decidiu que sairia no dia 25 de fevereiro, como lhe garantiram. Primeiro, deu alguns passo entre a poltrona e a cama. Num sábado a noite, queria ir ao banheiro, e não usar a comadre. Pediu ajuda a enfermeira. “Disse que ou ela me ajudava a andar, ou eu iria cair da cama e a culpa seria dela. Ela chamou uma colega e eu consegui ir sozinha”, diz. Umbandista, a família acredita que havia uma força maior responsável pela recuperação rápida da filha, que tem muita fé em Iemanjá.
E ela conseguiu: ganhou alta no dia que queria e ainda saiu andando do hospital. O curso que fazia em Santa Maria, Administração, foi abandonado definitivamente, já que ela cogitava mudar o rumo da carreira. Agora, morando em Colombo, Jéssica se dedica à fisioterapia e assim que voltar a escrever, quer frequentar um curso pré-vestibular. Ela ainda não tem certeza de que carreira seguir, mas será ligada à saúde, para trabalhar em hospitais ajudando os outros.
Nesta semana, ela volta ao Rio Grande do Sul para receber uma malha, que ajudará no tratamento das queimaduras. Em Santa Maria, só deve ir em junho, para participar do dia de vigília pelo namorado. "Ainda não acredito que ele morreu. Preciso sentir isso", diz.


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