15 julho 2014

Para começar um projeto de pesquisa


Por José Luiz Braga




Fazer pesquisa solicita uma diversidade de reflexões e gestos mais ou 
menos complexos. É por isso que não vamos diretamente a campo para investigar – fazemos antes um cuidadoso planejamento, o qual se expressa em um 
projeto de pesquisa. Como o projeto vai se desenvolvendo ao longo do próprio 
trabalho de investigação (não paramos nunca de planejar), podemos chamar 
as fases iniciais de pré-projeto – ou, mais inicialmente ainda, de uma proposta 
de pesquisa. Assinalo que estou enfocando particularmente esse planejamento 
inicial: a proposta.
Quero enfatizar a particular centralidade, nesse planejamento, do problema 
de pesquisa. Só pesquisamos porque temos dúvidas a respeito de alguma questão 
do mundo. É lógico portanto que as dúvidas que temos (e que serão expressas 
no problema da pesquisa a realizar) devem comandar todo o trabalho de investigação – desde a busca das teorias e conceitos relevantes até a observação 
da realidade (coleta de dados), o tratamento desses dados e as conclusões ou 
inferências –, que correspondem ao conhecimento desenvolvido a partir do 
problema que nos moveu a investigar.

Geralmente os manuais de metodologia de pesquisa enfatizam como ponto 
de partida para investigação uma hipótese de pesquisa. Esta se baseia na afirma-
ção (hipotética, justamente) que seria investigada a fim de confirmarmos, ou 
não, se efetivamente corresponde aos fatos. Consideramos que, nas pesquisas 
qualitativas, essa insistência pode levar a equívocos.
A pretendida necessidade da hipótese de pesquisa leva a um esforço do pesquisador para apresentar alguma coisa que seja aceita como tal. Como nós sempre 
temos idéias, impressões e propostas referentes aos temas que nos interessam 
(e que nos motivam a pesquisar), é fácil decidir que uma dessas proposições é 
nossa hipótese. Tipicamente, entretanto, se trata de premissas ou de sacações (no 
dicionário Houaiss: “idéia, invenção, lampejo”. Refere-se ao habitual anglicismo 
insight). Os lampejos correspondem àquelas idéias explicativas ou interpretativas que acabamos descobrindo de modo espontâneo por nos envolvermos continuadamente com um tema, por experiência prática ou por leituras.


O processo do insight, ou lampejo, seria o seguinte. Trabalhamos com um 
assunto qualquer (por exemplo, questões referentes à estética publicitária ou 
à violência na TV, entre outras). Observamos o que as pessoas fazem e dizem, 
lemos a respeito. De repente percebemos perspectivas que ninguém parece ter 
ainda notado – é o nosso insight. Como estamos pretendendo fazer uma pesquisa, a forte tendência é tomar essa idéia como nossa hipótese – nos propomos 
a pesquisar para ver se é ou não verdadeira.

Dificilmente seria uma boa hipótese. Trata-se talvez de um bom ponto de 
partida. Mas se o final da investigação nos levar de volta a ele, apenas fizemos um 
círculo para chegar ao lugar de onde saímos, confirmando o que já sabíamos.
Seria possível dizer (alguns pesquisadores nessa situação efetivamente o 
dizem): “Mas talvez a gente acabe provando que a hipótese não é verdadeira 
e, portanto, há realmente alguma coisa a investigar”. Além de ser frustrante 
fazer uma pesquisa apenas para provar que estamos errados, isso dificilmente 
ocorrerá. Primeiro, porque, motivados pelo insight, trabalharemos tendencialmente para provar essa idéia – gerando uma cegueira involuntária para todos os 
dados que a contrariem. Segundo, porquanto provavelmente uma idéia gerada 
por forte envolvimento com a situação é mesmo verdadeira (isto é, válida para 
o espaço e conjuntura em que foi proposta) e se sustenta pela própria constatação 
ao vivo, sem precisar de pesquisa para o demonstrar.

Não estou sugerindo que se jogue fora aquela idéia brilhante (seria frustrante, não é?), mas apenas que ela não seja usada como hipótese de pesquisa. 
Mais adiante faremos sugestões de bom uso para os insights (se eles existirem). 
Contudo, desde já assinalamos que não é preciso ter idéias brilhantes iniciais, 
fulgurações conceituais ou propostas salvadoras.
Às vezes você tem em mãos (se tiver, mas não é necessário) uma hipótese 
de trabalho. Esta, diferente da hipótese de pesquisa, é usada como base para organizar a observação. A questão (ou problema da pesquisa) pode tomar então a 
seguinte forma: se esta hipótese é verdadeira (e trabalharemos como se fosse), 
o que poderemos descobrir sobre os processos em pauta, estando munidos de 
tal afirmação? Note que aqui não vamos investigar a hipótese, mas sim tomá-la 
de antemão como verdadeira e usá-la como modo ou instrumento para direcionar as observações.
Para evitar, em uma proposta de pesquisa, confundir premissas, lampejos 
e hipóteses de trabalho com hipóteses de pesquisa, talvez a melhor tática, para 
o iniciante, seja a de não apresentar nenhuma hipótese pretendida como “de 
pesquisa”. Em vez disso, apresente diretamente seu problema de pesquisa.


A DÚVIDA E A CURIOSIDADE COMO BASE

Dissemos que ter lampejos, idéias brilhantes iniciais e hipóteses de pesquisa 
não é necessário. Outra coisa, entretanto, é fundamental: curiosidade. É preciso 
estar curioso a respeito de uma situação ou tema. Ou seja: deve-se ter dúvidas, 
reconhecer que não sabemos alguma coisa sobre a questão de nosso interesse.290
comunicação & educação • Ano X • Número 3 • set/dez 2005
É por isso que um problema de pesquisa toma, freqüentemente, a forma de 
uma pergunta. “O que será que...?”; “Como tal coisa se caracteriza?”; “Que sentido tem...?”; “Por que tal processo acontece?”; “Que diferenças existem entre...?”; 
“Quais as formas diversificadas e variações de tal processo comunicacional?”.
No espaço da comunicação ou da educação, não é difícil encontrar problemas, situações problemáticas, dificuldades, estímulos à curiosidade. O espaço da 
comunicação, para você, pode estar relacionado a uma formação em determinada 
área (jornalismo, publicidade, relações públicas, audiovisuais); a um campo 
de interface (outras formações sociais/culturais com percepção de questões 
comunicacionais); a uma experiência profissional correlata; a leituras sobre 
questões pertinentes; ou até mesmo à simples situação de usuário interessado 
da mídia (espectador de programas de TV, leitor de jornal, usuário da internet, 
aficionado de filmes cinematográficos etc.). Na educação, os problemas práticos 
de obter aprendizagem, de aprender, de organizar e gerir atividades de ensino 
podem estar ligados a todas as atividades humanas e sociais.
Ora, não é qualquer não saber que pode gerar diretamente pesquisa. Vamos afastar alguns não saberes a fim de evitar riscos. Primeiro, aqueles que, 
para serem supridos, basta uma ida à biblioteca. Eu não sei uma porção de 
coisas, entretanto, posso prever que alguém saiba (tipicamente: o especialista, o 
professor, os livros). Nossas dúvidas, aí, não levam à pesquisa, mas ao estudo. 
Claro que, em uma pesquisa, aparecem também questionamentos, que serão 
resolvidos na biblioteca ou em consulta a especialistas. Mas não formam o eixo
da pesquisa. São complementares.


Além disso, faça outra triagem: distinga problemas de conhecimento de problemas práticos. São os primeiros que direcionam à pesquisa. Um problema prático 
pede solução, a qual é geralmente desenvolvida por meio de interferências no 
ambiente mesmo das situações problemáticas, tipicamente profissionais (“O que 
fazer para que...?”; “Como obter mais qualidade em tal processo?”; “Como evitar 
equívocos de tal tipo?”; “Como resolver com mais eficiência este processo?”).
Quando tais problemas de situação são mais complexos, talvez seja necessário 
mais do que agir diretamente – e aí queremos trazer aportes científico-tecnológicos. 
Podemos então escrever elaboradas propostas, bem baseadas em conhecimento 
acadêmico, para o encaminhamento de soluções. Ainda assim, não se trata de 
pesquisa. Certamente podemos pensar em pesquisas de desenvolvimento, feitas 
em zona intermediária entre a pesquisa de conhecimento e ações propositivas 
práticas. Essa possibilidade não será entretanto aqui estudada.
Ficaremos, então, com os problemas de conhecimento: “o que é preciso saber
sobre tal situação?”; “O que deveremos descobrir sobre ela para que nosso conhecimento da realidade em foco seja ampliado?”.

Como se pode perceber, podemos derivar um problema de pesquisa de um 
problema prático. Dada uma situação-problema na realidade, se essa situação 
é suficientemente complexa, em vez de procurar e propor soluções concretas 
imediatas, tentaremos direcionar a reflexão para: “como aprofundar meu conhecimento sobre essa situação antes de buscar soluções?”.
O trabalho de aprofundar conhecimentos seria a pesquisa acadêmica. No 
caso de um mestrado, resultará em uma dissertação. As soluções concretas 
podem ser decorrentes da dissertação, mas já não fazem parte dela. Serão, se 
for o caso, expectativa para depois; e resultado de aplicações posteriores dos 
conhecimentos obtidos sobre a realidade social.


Por outro lado, não precisamos partir diretamente de situações problemáticas 
da realidade. Podemos começar com preocupações e curiosidades mais abstratas 
ou conceituais, com dúvidas sobre o sentido das coisas. Neste caso, porém, não se 
esqueça – em algum momento na elaboração de seu projeto – de relacionar essas 
questões com uma realidade específica. Pois não se investigam abstrações. Salvo nas 
pesquisas especulativas (mais próprias do trabalho em Filosofia ou nos espaços 
mais rarefeitos das fronteiras epistemológicas das Ciências Humanas e Sociais, 
que exigem longa formação e experiência prévia em pesquisa), trabalharemos 
tipicamente com investigações sobre questões relacionáveis diretamente à realidade social/expressional da comunicação ou da educação.
Muito bem... até aqui tivemos exclusões (do tipo não faça isto). O que não 
permite avançar-se muito, porque a questão não é o que não fazer, mas sim o 
que fazer sobre o que não sabemos, sobre nossa curiosidade, que se deve expressar 
em um não saber especificado, para gerar pesquisa.


PARA COMEÇAR A CONSTRUIR O PROBLEMA DA PESQUISA

Sabemos, então (aproximadamente), o tipo de problema que nos interessa 
para fazer pesquisa, em torno de um tema de nosso interesse. Mas ainda não 
temos certeza de como elaborar e expressar um problema de pesquisa.
É claro que naturalmente não há receitas para isso. Constrói-se um problema de pesquisa de muitas e muitas formas diferentes. Além disso, construir 
um problema de pesquisa não corresponde simplesmente a descobrir a questão
e a escrever. É um processo de elaboração que se pode desenvolver em várias 
fases diferentes da própria pesquisa – evoluindo à medida que estudamos 
autores, fazemos pré-observações e pensamos metodologicamente sobre como 
abordar nosso objeto.
Mas nossa questão aqui – felizmente – é bem mais simples. Trata-se apenas 
de prefigurar um problema de pesquisa; em dar a partida, em ter um questionamento inicial em que se agarrar para poder depois, já na pesquisa, dar outros 
passos.
Façamos então o seguinte.
Como primeiro passo, escreva tudo o que você já sabe sobre o tema de 
seu interesse. Inclua aí dados de experiência prática, observações casuais que 
tenha feito sobre o objeto que lhe chama a atenção, leituras recentes, leituras 
ad hoc (ou seja, já realizadas em decorrência de estar pretendendo elaborar 
uma proposta sobre o tema). Não se esqueça de incluir, é claro, aquelas idéias 
fulgurantes, as sacações referidas antes (se existirem, mas lembrando que não 
são necessárias).

Lembre-se também de identificar as diferentes origens do que você já 
sabe (leituras, experiência etc.). No caso de leituras, não se esqueça de citar 
os autores, livros, número das páginas.
Note: esse texto não é ainda o seu projeto. É apenas um documento preparatório, uma peça para ficar nos bastidores e que não irá à cena. Sinta-se livre, 
portanto, para escrever o que quiser, da forma que preferir. Nenhum professor 
vai ler isso – você estará escrevendo para si mesmo.
Só o fato de ter alinhado essas proposições, se você tem sorte, já lhe 
terá deixado cheio de dúvidas. Supere aquelas existenciais, as referentes a sua 
competência para tratar do assunto e para fazer pesquisa, e selecione apenas 
as que dizem respeito ao próprio objeto.

Passemos então ao segundo passo da elaboração – sempre nos bastidores, 
sempre escrevendo apenas para você. Utilize as dúvidas percebidas, mobilize 
sua curiosidade e comece a escrever perguntas; tudo que você consiga perguntar. 
Nesse momento, não se preocupe se são relevantes ou não, se são brilhantes ou 
simples. É uma fase de brainstorm (se não sabe o que é, que tal ir ao dicionário?). 
O prêmio aqui não é para as boas questões, mas para a maior diversidade.
Você poderá então passar ao terceiro passo, que é, naturalmente, a crítica das perguntas. Distinga as que expressam apenas falta de informação e de 
maiores estudos. Você desconfia que esse conhecimento já existe em algum 
lugar e que precisará dele para fazer avançar a pesquisa, mais tarde. Guarde 
cuidadosamente tais perguntas para que o ajudem a procurar informações, mas 
perceba que elas não comporão diretamente seu problema de pesquisa.
Separe ainda as questões práticas, isto é, aquelas que pedem soluções 
concretas, ações, propostas diretas sobre o que fazer. Esse conjunto não tem 
uso central para a construção do problema de pesquisa. Mas reserve-as para 
uma segunda rodada de brainstorming. Verifique aí se não é possível derivar
delas dúvidas de conhecimento. Além disso, se são perguntas práticas complexas 
e relevantes, podem servir como meta posterior à pesquisa, ou seja, a pesquisa buscará conhecimentos que sejam depois úteis para encaminhar soluções 
para os problemas de realidade (e isso deve, mais tarde, ser indicado em sua 
proposta).


Discrimine também as perguntas para as quais você já tem resposta. É 
fundamental ser muito sincero com você mesmo. A resposta pode ser aquela 
sacação que você gostaria muito que fosse a conclusão da pesquisa – mas aí não 
vale, porque esta já estaria concluída antes de ser começada. Pode ser, ainda, 
que a resposta seja uma proposição argumentativa elegantemente direcionada 
pela pergunta. Nesse caso, trata-se do que chamamos de pergunta retórica, ou 
seja, ela não pede uma resposta, como uma questão comum, apenas encaminha 
um argumento. Exemplo: “Seriam os usuários de TV passivos diante da programação que recebem?” – encaminhando a resposta: “Não, pois percebemos 
que cada espectador reage diferentemente aos programas, gerando variadas 
interpretações. Logo, estão ativamente fazendo interagir seus repertórios pessoais 
(variados) com o que diz e mostra a programação”.293
Para o caso das perguntas que já têm ou presumem respostas, veja se as 
proposições feitas na primeira fase de nosso exercício (alinhar tudo o que você 
já sabe sobre o tema) mais ou menos coincidem com as respostas implícitas. Em 
caso negativo, pense em transferir esse material para aquele documento preparatório, já agora na forma de propostas afirmativas e não mais interrogativas.
Separe ainda as questões amplas demais, muito genéricas e vagas, que você 
não consiga relacionar a uma busca especificada de conhecimento. Lembre-se de 
que você vai investigar (ou seja: vai olhar sistematicamente um pedaço da realidade) para procurar encaminhamentos para seu problema. Assim, perguntas 
muito amplas ou vagas não são pertinentes – ou você não saberia o que olhar 
na realidade; ou teria que observar uma realidade muito ampla, diversificada 
e complexa (e não daria tempo).

Por exemplo: “Como a comunicação midiática modifica os processos de 
aprendizagem tradicionalmente ancorados no livro?”. Interessantíssima questão. 
Entretanto, não é diretamente pesquisável. Se eu tiver suficiente experiência na 
área (interface comunicação/educação) e as leituras adequadas, poderei escrever um belo ensaio em, digamos, dois meses de trabalho. Mas não conseguirei 
investigar a questão diretamente nesse nível de abrangência, nem mesmo em 
dez anos de pesquisa.
Distinga o conjunto acima, mas não jogue fora essas perguntas. Elas talvez 
tenham forte utilidade para definir o horizonte em função do qual o problema 
pode ser construído. É por isso que insisti antes na palavra diretamente. Pois 
quem sabe indiretamente signifique questões relevantes. Você poderá então 
tentar derivar perguntas mais específicas a partir delas – nesse caso, mantenha 
as questões gerais como seu horizonte e construa o problema em torno das 
específicas.

É possível que você tenha, no seu elenco, algumas perguntas do tipo sim/
não. São aquelas que oferecem apenas uma possibilidade binária exclusiva de 
resposta: ou uma coisa, ou outra. É raro (embora não impossível) que essas 
questões sejam bom eixo de pesquisa. Primeiro porque, quando são tão dramaticamente contrapostas, já temos uma preferência por uma das alternativas (o 
que nos remete às perguntas com respostas prontas). Depois, porque a realidade sociocultural e o sentido das coisas dificilmente são tão simplificados para 
permitir dualidades mutuamente excludentes. Alternativamente: ou a contraposição é justamente simples, e não exige pesquisa, ou é caso antes de tomada 
de posição do que de busca de conhecimento, e não exige pesquisa.
O mais freqüente é que uma pergunta desse tipo na verdade esteja reduzindo uma realidade mais complexa, que não deveria portanto estar sendo 
apreendida em termos de ou isso ou aquilo. E aí, qualquer que seja a alternativa resultante da investigação – sim ou não –, torna-se pobre ou claramente 
falseadora da situação.

Assim, se você tem alguma pergunta elaborada dessa forma, em vez de 
descartá-la, procure derivar dela questões mais sutis ou complexas – do tipo 
Como? –, que se mantêm abertas, pois podemos encontrar diversos como em 
vários níveis (ou seja, diferentes modos e formas de um processo ou fato). Ou, 
ainda, tente perguntas como: “Que diferenças podem ser percebidas [em alguma 
coisa que parece em geral monolítica]?”. E também: “Que semelhanças podemos 
encontrar [em coisas que parecem diferentes ou isoladas entre si]?”. É claro 
que interrogações dessa natureza dependem de que já estejamos desconfiados 
das diversidades (ou das similaridades, na segunda alternativa). Mas note que 
a questão não é “Há diferenças internas na situação dada como monolítica?” 
(resposta sim ou não). Procurar diferenças e variações decorre da prévia perspectiva do sim – e a busca será de quais?, questão aberta à descoberta.
Feitas as distinções anteriores, você deve ter agora um conjunto (mesmo 
pequeno) de perguntas mais ou menos específicas, mais ou menos indicadoras 
para o trabalho de investigação (observação, trabalho de campo, exame de 
textos e materiais audiovisuais – obtenção de dados).
Se forem muito poucas e você sentir que estão ainda fraquinhas, tente uma 
segunda rodada de geração de perguntas – novas ou derivadas das perguntas 
amplas, das perguntas práticas e das do tipo sim/não. Ao final de um certo 
exercício nessa direção, tendo chegado a um conjunto de questões mais ou 
menos aceitas (por você mesmo, é claro), passaremos ao exercício seguinte – 
que será nossa quarta fase, a de sistematização das perguntas.
Note que não é preciso ter um grande número de interrogações para construir 
um problema de pesquisa. É melhor mesmo que sejam poucas, pois o importante 
é a consistência do conjunto e, particularmente, sua relevância e possibilidade de 
efetivamente demarcar a curiosidade que você tem sobre o assunto.
Como quarto passo, procure então organizar as perguntas – mais relevantes e secundárias; mais amplas e mais específicas; independentes entre si ou 
relacionadas; relacionadas em paralelo ou por subordinação; mais teóricas ou mais 
voltadas para a busca de dados etc.


Os modos de organizar vão depender, é claro, do conjunto específico de 
questões que você gerou. O objetivo principal, aqui, é ultrapassar o nível de 
perguntas soltas e chegar a um padrão de consistência em que se perceba um 
conjunto integrado, internamente relacionado, de perguntas.
Faça isso como um jogo de armar – tente uma alternativa, um “desenho”, 
e depois outro e outro, até ficar satisfeito. Não fique, porém, satisfeito cedo 
demais: brinque um pouco com as possibilidades.
No decorrer do processo, é possível que você tenha a tendência de reformular algumas questões, de criar outras, de substituir alguma coisa. Sinta-se à 
vontade: as perguntas são suas.
No quinto passo, quando tiver chegado a um conjunto mais ou menos 
consistente, veja se consegue escrever um pequeno texto para “explicar” o que 
é tal conjunto, por que ele é interessante, como efetivamente configura sua 
curiosidade sobre o tema.

Não é preciso insistir que esses exercícios são iterativos, isto é, podem (e 
devem) ser reiterados, em um processo de ida e volta entre: as proposições 
iniciais sobre o tema; as perguntas (em sua variedade de tipos); a crítica das 295
perguntas; o conjunto de construção de consistência no questionamento; e o 
texto sobre o interesse das perguntas.
Os documentos elaborados nas diferentes fases do exercício não são ainda
a proposta de pesquisa, porém constituem aqueles documentos preparatórios, de 
bastidores. Mas ao chegar a um conjunto consistente de perguntas (para sua 
satisfação) e conseguir o texto explanatório sobre seu questionamento, você 
terá então os materiais necessários para começar a escrever a proposta. Faça, 
assim, um texto claro, pensando em um leitor que possa compreender seu 
projeto. Use o que for possível e interessante, dos documentos preparatórios, 
no texto da proposta. Lembre-se de que você não está escrevendo um artigo; 
dessa forma, evite respostas antecipadas e um tom de terminalidade. Mantenha 
o texto aberto para futuros desenvolvimentos e não esconda suas dúvidas.
Não se preocupe excessivamente com o atendimento desses passos, como 
se fossem uma receita rígida. Tome suas próprias decisões. Tais indicações são 
genéricas, e sua construção de problema é específica. Você pode, então, se sentir 
mais produtivo deixando de lado alguma coisa e inventando outras táticas.


RELAÇÕES ENTRE PROBLEMA E OBSERVAÇÃO

Em uma fase inicial, os desenvolvimentos teóricos e o planejamento da 
observação podem ser ainda bastante preliminares. No momento – e com rela-
ção à construção do problema de pesquisa –, quero apenas chamar a atenção 
para duas ou três idéias básicas sobre relações entre o problema de pesquisa 
e o trabalho concreto de investigação.
Deve haver uma forte coerência entre o problema de pesquisa e a percepção da realidade (investigação propriamente dita). Mesmo que a previsão 
detalhada das verificações a serem feitas corresponda a uma etapa posterior 
de planejamento, é importante pensar desde já no que você pretende observar 
sistematicamente.
Primeiro, para prefigurar o que será seu trabalho de campo. Você vai entrevistar pessoas? Quantas? Onde? Examinará produtos midiáticos (programas 
de TV, sites de internet, fotografias)? Acompanhará experiências pedagógicas? 
Quais, quantas, segundo que perspectivas? Irá observar diretamente pessoas em 
atividade no mundo real (interagindo na internet, o público de um festival de 
cinema, uma redação de jornal, uma escola)? Que situações específicas interessam? Como vai observar (participando do grupo, apenas olhando, fazendo 
perguntas)? Para obter que tipos de dados?
Como se vê, uma listagem seria infinda. Pensar em suas alternativas específicas é relevante, porque essa vai ser a investigação propriamente dita. Você 
ocupará uma boa parte do seu tempo fazendo tais coisas – e não deve ser 
apanhado de surpresa, na hora da investigação, sem saber direito o que fazer, 
nem descobrir de última hora que aquele problema exige certas observações.
Mas há uma outra razão para pensar nisso desde o começo. Você deve 
decidir se as observações que está pensando em fazer são coerentes com o 
problema de pesquisa que começou a construir. Aquele problema, apresentado 
daquele modo, será adequadamente gerador de conhecimentos através dessas 
observações?
Assim, prefigurar as observações é um bom teste para a qualidade da 
construção do problema. Caso as observações imaginadas não pareçam estar 
bem articuladas com o problema, tente decidir se outras seriam melhores, 
mais ajustadas. Mas também é possível que as observações pretendidas sejam 
interessantes. Neste caso, faça uma boa revisão em suas perguntas para ajustá-
las ao trabalho investigativo que está querendo fazer. Elas serão aperfeiçoadas, 
ajudando a desenvolver o problema de pesquisa.
Você terá, assim, iniciado – concretamente – seu projeto de pesquisa. A 
partir daí, as buscas teóricas virão – a serviço do projeto e não como abstração 
desconectada. Pode ser um bom começo.

Resumo:
O presente artigo, dirigido a 
estreantes em pesquisa, trata dos movi­
mentos reflexivos e construtivos iniciais 
para desenvolver um projeto. Depois 
de propor que a habitual insistência em 
hipóteses de pesquisa pode levar a equí­
vocos, quando se trata de pesquisas qua­
litativas, enfatiza o trabalho preliminar de 
construção do problema de pesquisa. 
Explicita características mínimas de um pro­
blema adequado, afastando tipos de proble­
ma pouco promissores. Apresenta então, 
sobre esta base, indicações práticas para 
tal construção, através de um exercício em 
cinco passos ou fases. Finalmente relaciona 
a previsão da observação (investigação 
propriamente dita) com a construção do 
problema.
Palavras-chaves: projeto de pesquisa, 
problema de pesquisa, investigação.

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