11 agosto 2015

Pierre Bourdieu: El sociólogo


El sociólogo Pierre Bourdieu, uno de los más influyentes en la disciplina durante las últimas décadas y activista contra el liberalismo económico, murió en París, 23 de janeiro de 2002 de enero a los 71 años, de cáncer.

Catedrático de Sociología en el Colégio de Francia de París desde 1981, Bourdieu comenzó a destacarse dentro del escenario intelectual francés en 1964 con la publicación “Les Hérieters”(Los Herederos), obra en la que coloca una crítica contra la enseñanza universitária y sus privilegios.

A comienzos de los sesenta viaja con destino a París; allí sería director de estudios de la Escuela de Altos Estudios en Ciencias
Sociales de 1964 a 1980.

Su pasión por la investigación lo condujo a profundizar autores como Marx, Sartre, Merleau-Ponty o Husserl; también mantuvo contactos con el estructuralismo de princípios de los 60, del que le atrajeron su preocupación por el lenguaje y su vocasión etnológica.

La práctica pedagógica lo llevó a reflexionar sobre el sistema educativo, lo que se tradujo en obras como “La Reproduction”, “Lês Regles de Lárt”, Noblese d´etat, “La Distinction”, donde analizaba los mecanismos culturales de diferenciación social, más allá de los puramente económicos.

En los últimos diez años, Bourdieu se destacó por asumir la línea de frente del movimiento antoglobalización; él afirmaba que vivíamos una época de desigualdades crecientes: “Durante el capitalismo salvaje hubo límites, contra el capitalismo hubo paros, etc. Ahora, se va para el capitalismo ilimitado; se introducen formas de gerenciamiento que antes eran inimaginables. Es la lógica del lucro sin límites. Eso es muy peligroso. Nos puede llevar a la barbárie".

Dentro de su faceta de activista político, uno de los libros más conocidos fue
“La Misere du Monde” de 1993, donde denunciaba el sufrimiento social, y en 1996 fundó la asociación Líber Raisons d´agir que editaba libros en los que se cuestionaba el liberalismo.

Bourdieu reflexionó en los últimos años sobre el papel de los medios de comunicación y la responsabilidad de los periodistas en la construcción de una realidad dada por supuesta de forma acrítica y fruto de ese trabajo fueron estudios como “L´emprise du jornalisme” o “Sur la telévision”.

            Como lo recordara el primer ministro francés, Lionel Jospin, frente a la noticia de la muerte del sociólogo: “Bourdieu era un maestro de la Sociologia contemporánea, una gran figura de la vida intelectual de nuestro país” y un hombre “que vivió personalmente la dialéctica entre el pensamiento y la acción”.
 
 
Bourdieu: relato de uma aula inaugural

Por o professor Clovis de Barros

O aviso no mural era claro. A primeira aula de sociologia do ano estava prevista para as nove horas, em quatro anfiteatros diferentes. Cheguei meia hora antes. Fingi não saber de nada e perguntei a um funcionário sobre o local e horário. Ele me indicou, sem hesitar, o número de um deles. Tranqüilizado, encaminhei-me. Primeiro, seguindo flechas. Depois, o próprio fluxo dos alunos. Já na sala, não percebi, de imediato, a tela no lugar da cátedra. O esclarecimento do colega ao lado se impôs: “Para assistir onde ele está, é preciso chegar antes das sete. Ainda mais no começo do curso. Depois vai melhorando”.
Alguns minutos antes das nove, a luz do projetor faz o silêncio. A primeira imagem é de uma mesa vazia e uma cadeira. Atrás, uma porta que se abre, segundos depois. O professor sobe os degraus do estrado e se aproxima da mesa. Teatro para uns, cinema para outros. O rito de uma prática incorporada, em anos de docência, dispensa o ensaio. Seus gestos contrastam com a solenidade do cenário. Um assistente de ensino fundamental que entrasse numa sala de aula pela primeira vez não agiria diferente.
Ainda de pé, abre a mala e retira uma folha de papelão dobrada ao meio que lhe serve como pasta de papéis. Senta-se. Ao desdobrá-la, acusa o equívoco franzindo a testa. Levanta-se e troca de pasta. Volta a sentar-se. A mala, ainda aberta, é colocada no chão. Pela primeira vez, o professor contempla, de relance, os ouvintes. As folhas, manuscritas, escapam pelas bordas da pasta. São reempilhadas.  As orelhas das páginas não parecem incomodar. Passados alguns segundos das nove, Pierre Bourdieu toma a palavra.
Para alguém acostumado com longas apresentações e votos de boas- vindas, os primeiros minutos produzem desconforto. Sem recorrer aos jargões introdutórios tão comuns na academia, a intervenção não marca simbolicamente seu início. A tal ponto que cogitei tratar-se de um trecho de  aula gravada. Ingenuidade de que se pouparam os mais madrugadores, copresenciais ao mestre.
A aula apresentaria duas partes. A essa conclusão só cheguei depois de transcrevê-la por completo. Num primeiro momento, faz abordagem sociológica da própria produção e das referências filosóficas de seus principais conceitos. Na segunda parte, mais curta, propõe reflexão também sociológica sobre uma aula, uma aula inaugural, no Collège de France.

A sociologia da produção

Uma profissão de fé metodológica, em retórica mais inflamada do que de hábito, punha em alerta a audiência. A preocupação de todo pai fundador em garantir especificidades, definindo-as sistematicamente. O imperativo categórico é objetivar o sujeito objetivador. Tomar, desta forma, na análise da própria produção científica, as cautelas epistemológicas de qualquer investigação. Objetos, quadros teóricos de referência, instâncias de produção e divulgação científica decorrerão deste rigor metodológico singular.
Inscrevendo-se num campo de produção das ciências sociais, o professor se esforça, passo a passo, para marcar fronteiras, em relação a outros campos, e posições, em relação a alguns membros do campo. As rupturas propostas não são neutras. Primeiro, Marx. “Discorrer sobre a importância de Marx para o estágio atual das ciências sociais é fazê-los perder tempo”, sentencia. Refuta, no entanto, com veemência, o rótulo de “neo-marxista”, como redutor e gerador de equívocos. Alonga-se sobre a relação entre campo e classe, o que o afasta da sua literatura publicada até então. Critica o caráter substancialista do conceito de classe. Contrapõe-lhe a lógica reflexiva das posições do campo. Esclarece: se o burguês é objetivamente burguês, em função dos meios de produção, as posições de dominante e dominado no campo só existem e tem sentido umas em relação às outras.
Introduz, sutilmente, para a melhor compreensão desta reflexividade, a dimensão não calculada de muitos dos deslocamentos e tomadas de posição em qualquer campo. Menciona o habitus e recomenda a leitura dos gregos, sobretudo Aristóteles. Aponta na Metafísica o hábito como condicionante da percepção. Estende seu alcance à percepção da prática social que se incorpora em trajetórias singulares.
Comenta, com entusiasmo, a aplicação moderna desta reflexão objetivada no conceito de jogo em Wittgenstein. Observa que alguns filósofos pragmáticos americanos “parecem também ver, no hábito, matriz geradora de comportamento”. Recusa-se a maiores digressões por conhecer “muito pouco” autores como Dewey e James. Estranho que ignorasse obra específica de Durkheim, relacionando o pragmatismo e a sociologia.
A dicotomia indivíduo-sociedade, útil para alimentar disputas ideológicas, esbarra nesses esquemas corporais de percepção e classificação do mundo. Sugere a Fenomenologia da Percepção. Por intermédio de Merleau-Ponty, alude a uma de suas principais vítimas: Sartre.
Mais tarde, em Méditations Pascaliennes (1997), detalharia a importância do “intelectual total” na constituição do campo universitário francês no século XX. Na aula, já o fazia, muitos anos antes: “a oposição a Sartre me fez ler autores e forjar reflexões que teriam sido distintas fossem outros os dominantes”. Ataca o ultra-subjetivismo de L´Être et le néant, destaca a relevância das condições propriamente sociais de definição do “projeto original” e diz não compreender o real alcance do conceito de “má-fé”.
Na seqüência de Sartre, tendo citado muitos outros autores e conceitos que decidimos suprimir para atender ao propósito deste artigo, o professor interrompe abruptamente a reflexão. Indaga a si mesmo, inquirindo o público: “Mas, enquanto participantes desta aula, que posição estamos ocupando neste espaço de produção?”

A lição sobre a aula

Desculpa-se por retomar temática já discutida em outros cursos. Refere-se, sobretudo, à sua primeira aula inaugural no Colégio em 1981. Fala da instituição como instância de consagração. Da consagração como definidora do valor social de uma conferência. Da conferência como produtora de legitimidade. Da sua legitimidade como porta-voz. Do capital específico do campo acadêmico. Das formas de investimento e incremento deste capital. Das estratégias, definidas em função de um saber prático incorporado ao longo de uma trajetória propriamente universitária. De um saber prático objetivado em disposições de agir. De disposições constitutivas de um habitus propriamente acadêmico. Da força simbólica da lição, como dominação, decorrente de uma autoridade reconhecida. Deste reconhecimento, possível graças ao desconhecimento das suas reais causas. Das causas sociais de fatos sociais.
A seqüência de frases permite o desfile articulado de seus principais conceitos. Seus sentido e alcance exigem outros como referencial. O repertório presumido do ouvinte é rico. Os exemplos do cotidiano são raros. Para explicar o habitus como sistema de competências, no duplo sentido de habilidades interiorizadas e de autorização social para agir, o professor recorre ao conceito de campo, isto é, de um espaço social de posições, com regras e troféus específicos e, portanto, relativamente autônomo dos demais campos. “Os conceitos de habitus e de campo compõem um todo ontológico”, enfatiza o professor. Ao insistir que o habitus é uma forma de subjetivação das estruturas, ou seja, das relações de força em ação no campo, o professor torna sua fala auto-referencial. Qualquer fratura na atribuição de sentido pode representar minutos de incompreensão. Pior para os não iniciados.
Apesar do hermetismo, a lição não é interrompida nenhuma vez. Um acordo tácito de disposições ao silêncio garante fluidez e dispensa qualquer determinação expressa. Socializações semelhantes tendem a gerar práticas orquestradas, sem qualquer batuta visível. Assim explicaria o mestre a reverência muda com que foi acolhido.
No final da aula, duas horas e trinta e quatro minutos após o seu início, as imagens flagraram a abordagem de alguns alunos. Troquei de sala e esperei pelas outras indagações. Autorizado por um olhar, aproximo-me procurando não acusar, em demasia, os efeitos da carência de recursos sociais, decorrente da combinação de fatores como o calourismo e a estrangeiridade. “Être mal dans sa peau” (estar mal na própria pele), fruto de um ineditismo radical, da falta de qualquer síntese passiva, de um não-sujeito para a situação, da ausência de experiências ao longo da trajetória que, aprendidas e interiorizadas, garantissem alguma reação espontânea, sem cálculo, e oportuna.

“Não ficou claro em que medida os circuitos de consagração são tanto mais eficazes quanto maior a distância social do objeto consagrado”, perguntei. “Isto é claro”, corrigiu o mestre. “Imagine-se publicando um livro. Três comentários idênticos e elogiosos: um da sua mãe, outro de um colega da universidade e, um terceiro, de um professor que, em outro país, deu-se ao trabalho de traduzi-lo. Qual dos três comentários será mais valorizante para você?”, perguntou-me com ternura. 

A resposta óbvia tornou o constrangimento indisfarçável. Talvez por isso tenha buscado um incentivo. “A pergunta foi ótima”, continuou, sorrindo. “Normalmente as pessoas fazem das perguntas em palestras um uso legitimador, de autoconsagração. Ao esperar a saída de todos, você reduziu muito este efeito”, atalhou com descontração. Este artigo, quatorze anos depois, relata a pergunta, desmente o mestre e estende para além dos muros da escola a homenagem que o autor lhe faz a cada aula. Pierre Bourdieu virou-se e partiu, pondo termo à primeira, mais curta e, para mim, mais significativa de nossas conversas.
Clóvis de Barros Filho fazia no ano letivo 1988-89 um D.E.A (Diplôme d´Études Approfondies) na Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle). Hoje é professor do departamento de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, da ESPM, e de ética e legislação na ECA-USP e na Universidade Santa Cecília (Santos)

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