13 agosto 2015

Malangatana


Fotografia: Severino Ribeiro, Acervo Fundação Joaquim Nabuco



:: Perfil do Artista 

Valente Malangatana (1936-2011) nasceu em Moçambique e tornou-se um dos artistas plásticos mais respeitados internacionalmente. De origem humilde (foi pastor, aprendiz de curandeiro e empregado doméstico), converteu-se na idade madura em uma das mais emblemáticas personalidades africanas. Embora a pintura figurativa tenha sido sua principal realização artística, Malangatana também foi político, músico, poeta, gravurista e escultor. Em reconhecimento aos seus altos méritos, foi nomeado, em 1997, o “Artista Unesco para a Paz”.

Entre 11 e 26 de novembro de 1998, a convite do então presidente da Fundaj, Fernando Freyre, Malangatana esteve na Instituição e pintou, durante vários dias, o mural ora em destaque (Ver Descrição técnica). Na oportunidade, também foram incorporadas ao acervo dois óleos sobre madeira do artista. Pela primeira vez, o público brasileiro tinha acesso ao trabalho do grande moçambicano.

:: Descrição Técnica

Mural do Edifício Paulo Guerra (sede administrativa da Fundaj, bairro de Casa Forte, Recife) Autor: Valente Malangatana Dimensões: 240 cm X 480 cm Ano: 1998
Técnica: pintura mural em tinta industrial (tipo PVA) com pigmentos, executada diretamente sobre a parede. Em 2008, o mural passou por uma intervenção de restauro, pois a camada pictórica apresentava descolamento do suporte (parede em alvenaria); foi tratado com a refixação da camada pintada e retoques para reintegração de pequenas áreas de perda.

:: Depoimento
VALENTE MALANGATANA (1936–2011)

Sim, amigos, eu vi Malangatana, o múltiplo e universal artista de Moçambique, pintando um grande mural no Recife, criando mais uma vasta página do seu imaginário africano, no qual sentia-se e sente-se a emergência de uma cosmologia que transfigura uma inarredável e forte herança cultural. O grande figurativo suava, liquefazia-se no verão recifense de 1998, no hall do edifício Paulo Guerra, na sede da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Criador e criatura viviam o embate de se libertarem generosamente um do outro. Em meio às lágrimas de suor e tinta, arfavam como gigantes exaustos e pulsantes. Ao calor do verão tropical, vinham se juntar as cores quentes do moçambicano — laranjas, vermelhos e similares — e as linhas sinuosas de corpos e faces, algumas tão tristes e expectantes que poderiam roçar nossa pele e encadear histórias sem fim. As histórias que o próprio Malangatana ouvira na sua infância sem nunca saber ao certo se eram reais, verídicas, ou imaginárias, como eu mesmo o escutei dizer. Espantados, servidores e visitantes da Fundaj por vezes se detinham ante aquele inusitado quadro humano e plástico, do qual logo viria à luz um belo e grande mural (2,40 X 4,80) que traria, para sempre, a África aos nossos olhares cotidianos e curiosos. A África vital, dionisíaca e sanguínea de Valente Malangatana.

No último dia 5 de janeiro, Malangatana — ele próprio uma espécie de baobá humano e generoso — “partiu para a eternidade” aos 74 anos. E se foi coberto de glória, como símbolo e herói de sua gente. De menino pobre chegara a ser um artista internacionalmente reconhecido e prestigiado, a ponto de, em 1997, ter sido nomeado “Artista Unesco para a Paz”. E tanto quanto artista fora um homem excepcionalmente engajado política e socialmente, criando instituições de arte, lutando contra a então onipresente opressão colonial portuguesa, estimulando fraternalmente novas vocações em seu país.
Como artista, trouxe para a sua arte as suas vivências e convivências plurais. Na infância e juventude fora aprendiz de curandeiro, pastor e empregado doméstico; na idade madura se agigantou ao explorar e provar seus inúmeros talentos, tornando-se político, músico, poeta, gravurista e escultor, sem falar, é claro, de sua pintura onírica e figurativa, que se tornou seu estandarte artístico e universal.

Símbolo, na Fundaj, de uma fraterna aproximação cultural com a África, em particular com a África lusófona, o flamejante mural de Malangatana, encomendado à época do presidente Fernando Freyre, é também um testemunho de um povo que nos olha e pergunta por nossa atenção. Olhos e sexos que nos desnudam para nos vermos no seu magnífico espelho.

:: Acervo em Destaque

Responsável pela guarda, preservação e difusão dos acervos da Fundação Joaquim Nabuco, a Diretoria de Documentação, tendo em vista justamente a divulgação e o compartilhamento do seu patrimônio histórico, artístico e cultural, passa a expor, neste espaço virtual, o que há de melhor no acervo reunido em mais de seis décadas pela Instituição.
Nosso primeiro destaque é para o belo mural do artista moçambicano de renome universal Valente Malangatana, falecido no dia 5 de janeiro de 2011.


Paulo Gustavo, servidor da Fundaj e escritor

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